26/12/2018

Livros que fazem parte da história do Não

"Esses livros fantasmas, textos invisíveis, seriam aqueles que um dia batem à nossa porta e quando vamos recebe-los, por um motivo frequentemente fútil, esfumam-se; abrimos a porta e não estão mais lá, foram embora. Certamente era um grande livro, o grande livro que estava dentro de nós, aquele que realmente estavamos destinados a escrever, nosso livro, o mesmo que nunca mais vamos poder escrever nem ler. Mas este livro, que ninguem duvide disso, existe, está como que suspenso na história da arte do Não."

(Vila-Matas, Bartleby e Companhia)

30/12/2017

Fuga abstrata do tempo

De Fernando Pessoa:

"Quando vim primeiro para Lisboa, havia no andar lá de cima de onde moravamos, um som de piano tocado em escalas, aprendizagem monotona da menina que nunca vi. Descubro hoje que,  por processos de inflitração que desconheço, tenho ainda nas caves da alma, audiveis se abrem a porta la de baixo, as escalas, repetidas,  da menina hoje senhora outra, ou morta e fechada num lugar branco onde verdejam negros os cipestres.

Era eu criança, e hoje não o sou; o som, porem,é igual na recordação ao que era na verdade, e tem, perenemente presente, se se ergue de onde finge que dorme, a mesma lenta teclagem, a mesma ritmica monotonia. Invade-me de o considerar ou sentir, uma tristeza difusa, angustiosa, minha.

Não choro a perda da minha infancia: choro que tudo, e nele a (minha) infancia se perca. É a fuga abstrata do tempo, não a fuga concreta do tempo que é meu, que me dói no cerebro fisico pela recorrencia repetida, involuntaria, das escalas do piano lá de cima, terrivelmente anonimo e longinquo. É todo o misterio de que nada dura que martela repetidamente coisas que não chegam a ser musica, mas são saudade, no fundo absurdo da minha recordação."

(em Livro do Desassossego)

22/08/2017

"Arrepender-se de um ato é modificar o passado" (Oscar Wilde)

28/07/2017

Literatura e distopia

Muito interessante a analise do tema em Electric Literature.
Uma visão completa e historicamente rica,

Memoria e imortalidade

De Ricardo Piglia, agora imortal:



"Desde que tengo memoria me he pensado a mi mismo como si fuera inmortal y tuviera todo el tempo disponible para mi. No se trata de la inmortalidad entendida en um sentido mágico (como negación de la muerte) sin mas bien como la garantia incomprensible de disponer de un tiempo que no necesita ser utilizado hasta que no llegue el momento en un futuro que nunca se termina de alcanzar" (Los Diarios de Emilio Renzi - Anos de Formación)

Simples assim.

17/07/2016

Tudo segue como outrora?

Fernando Pessoa, no Livro do Desassossego escrevia há cerca de um século atrás:

"Na vida de hoje, o mundo só pertence aos estúpidos, aos insensíveis e aos agitados. O direito a viver e a triunfar conquista-se hoje quase pelos mesmos processos por que se conquista o internamento num manicômio: a incapacidade de pensar, a amoralidade e a hiperexcitação".

Aparentemente, nada mudou significativamente...

18/04/2016

"Mrs Caldwell habla com su hijo"

Do livro experimental de Camilo Jose Cela onde a mãe conversa com o filho já morto, as lembranças podem ser também muito doloridas e quase impossíveis e apagar:

"No consigo desentenderme, hijo mío, del tiempo que pasa, de la luvia que cae, del té que bebo, del hombre con el que me cruzo por la calle, del perro aterido de frio que araña la puerta de casa, de tu memoria. Y lo que yo quisiera, hijo mio, te lo podria jurar, era no tener tantas y tantas cosas atanazándome, tantas y tantas cosas recordándome, a cada instante, que no consigo desentenderme de ellas y vivir libre.

Las cosas, Eliacin. demonstrarían más nobles sentimientos borrándose para siempre, como una lágrima que cae al mar."

Mrs. Caldwell habla com su hijo, Camilo Jose Cela