04/10/2026

Dois livros para tempos estranhos

Acabo de ler dois livros de autores que fazem parte dos meus favoritos: Cama de Gato, de Kurt Vonnegut Jr., e Aniquilar, de Michel Houellebecq.

São livros muito diferentes, escritos em épocas e circunstâncias bastante distintas. Mas há algo que os aproxima: a capacidade de olhar para o mundo com uma mistura desconcertante de ironia, sarcasmo e pessimismo — e, ainda assim, encontrar algum humor no meio do desastre.

Vonnegut faz isso de maneira quase brincalhona. Em Cama de Gato, ciência, religião, política, guerra e a própria ideia de progresso humano são desmontadas com um humor absurdo e uma ironia que, quanto mais engraçada parece, mais incômoda se torna. É aquele tipo de livro em que rimos de uma situação e, alguns segundos depois, percebemos que talvez não devêssemos estar rindo.

Houellebecq é menos engraçado, mas não menos irônico. Em Aniquilar, o mundo parece caminhar lentamente para algum tipo de esgotamento — político, social, tecnológico e, sobretudo, humano. O romance mistura as grandes questões do nosso tempo com a vida privada, a doença, a velhice, a morte e os vínculos familiares. O apocalipse, em Houellebecq, pode estar acontecendo enquanto as pessoas continuam preocupadas com as pequenas coisas do cotidiano.

Talvez não seja por acaso que tenha escolhido esses dois livros justamente agora.

Estamos vivendo no Brasil um momento que, em muitos aspectos, parece ter saído de uma obra de ficção distópica. A realidade política e social frequentemente produz situações tão absurdas que a ironia parece ser uma das poucas maneiras possíveis de observá-las sem perder completamente a sanidade.

E talvez seja essa uma das razões pelas quais gosto tanto de Vonnegut e Houellebecq: ambos parecem nos lembrar que o absurdo não é necessariamente uma invenção da literatura. Às vezes, basta olhar com um pouco mais de atenção para o mundo à nossa volta.

No fim, talvez a literatura não sirva apenas para nos tirar da realidade.

Às vezes, serve justamente para nos ajudar a enxergá-la.